Terça-feira, 17 de Abril de 2012

E no entanto ele move-se... (1)

 

 

 

Se fosse possível tentar ensaiar, de forma descomprometida e com alguma profundidade, uma visão retrospetiva, crítica e autocrítica, da trajetória do jazz entre nós — ambição inteiramente desadequada às intenções deste simples escrito de apresentação do concerto de hoje —, forçoso seria reconhecer que a transição entre o período durante o qual floresceu o jazz amador e aquele em que o jazz profissional despontou e veio a consolidar-se conheceu, sem grandes ruturas, um processo afinal bastante natural.

 

É certo que, no campo cultural, os pioneiros do nosso jazz sentiram na pele as consequências nefastas e inibidoras de uma situação envolvente fortemente obscurantista, característica da ausência das liberdades mais elementares, em que a importante circulação da informação e das ideias ou o simples acesso às fontes do conhecimento (livros, concertos, discos) estavam altamente condicionados, por comparação com as perspetivas muito distintas que o fim da ditadura veio proporcionar aos novos músicos, nesse sentido tornando incomparavelmente mais arejada e mesmo cosmopolita a própria abordagem teórica e prática do jazz nesta ponta da Europa.

 

E mesmo que ainda tivessem persistido, por parte dos velhos músicos (e, porventura, justificados pelas provas dadas), alguns tiques “aristocráticos” que pareciam querer elencar essa espécie de “regras de admissão” dos mais novatos a um círculo de “notáveis” algo restrito, não é menos verdade que os novos talentos que entretanto surgiam procuraram superar, com assinalável bonomia, compreensão e até simpatia, um certo paternalismo que se manifestava aqui e ali.

 

Esta interessante afirmação de independência por parte da comunidade de músicos de jazz portugueses iria expressar-se de diversos modos: na criação contínua, enquanto instrumentistas e autores, de um repertório original e próprio que, não pretendendo contrapor-se ou substituir-se à importância decisiva do convívio regular com os “clássicos”, pudesse vir a constituir, ao arrepio das “normas” existentes, novas formas mais abertas e menos rotineiras de afirmação composicional; na adoção, já enquanto docentes, de novos princípios e métodos pedagógicos no próprio ensino do jazz, contribuindo para rodear e ultrapassar ideias-força que se haviam instalado; no próprio cotejo e confronto entre diferentes modos de encarar o jazz, por parte de docentes e músicos com trajetos académicos realizados nos EUA ou na Europa; e, finalmente, através da criação nas duas principais cidades do país de graus superiores de formação académica, assim aumentando o contingente de músicos inteiramente aptos ao desempenho competente de uma carreira profissional.

 

 

Não por acaso, o conjunto de músicos que gravou o projeto discográfico que vai estar subjacente ao concerto de hoje — Motor, o último álbum do guitarrista André Fernandes — é bem representativo, na sua diversidade geracional, geográfica e mesmo estética, deste multiforme movimento que caracteriza o jazz português mais atual.

                                                                                                     

Dos dois talentosos “veteranos” mais conhecidos, ambos lisboetas, Bernardo Sassetti provém de uma tarimba que começou mais apegada ao trajeto da aprendizagem familiar, enquanto André Fernandes é um dos primeiros grandes músicos portugueses a frequentar a academia no exterior, concretamente nos EUA.  Já os mais jovens (mas também experientes) Susana Santos Silva, José Pedro Coelho e Marcos Cavaleiro, são produto mais do que evidente das boas práticas académicas que se desenvolvem nesta área no Norte do país.  Quanto a Demian Cabaud, o contrabaixista, ele é um “nacionalizado” de origem argentina, com presença regular e muito competente nos palcos portugueses.  Retomando em estúdio o núcleo central que já gravara parte do seu anterior álbum Imaginário  (Tone of a Pitch, 2009), André Fernandes convidou ainda a trompetista e o saxofonista para completarem, caso a caso, esta nova formação.

 

Tratando-se de músicos que, de um ou outro modo, neste ou naquele contexto, têm frequentado todos eles centros importantes do jazz contemporâneo internacional ou trabalhado em Portugal e no estrangeiro com personalidades maiores desses meios, este grupo não deixa de refletir, em termos caseiros, a multidisciplinaridade que é uma característica essencial dessa realidade musical mais ampla e atual, com particular incidência na conceção e modernidade do repertório.

 

Em boa verdade, tanto ou mais do que instrumentista tecnicamente brilhante e conceituado, André Fernandes tem-se afirmado desde o início dos anos 2000 (ou seja quando, terminada a formação académica, passou a frequentar profissionalmente os palcos e os estúdios) um dos nossos compositores mais singulares e notáveis neste domínio, não apenas como solista criativo mas também como autor inspirado de inúmeras peças-chave do nosso repertório jazzístico, entre as quais se recordam ao sabor da memória O Osso, S, Manta, Howler, Pluma, Sal, Perto, Linda Naves, Beijo de Gelo.

 

Se bem ouvirmos as obras do guitarrista, logo concluiremos que deixámos de estar perante o quadro inspirador que, durante tantos anos, foi tradicional no jazz clássico ou moderno, gravado em disco ou tocado ao vivo: o mimetismo estrutural em relação a uma certa simetria dominante, própria da forma-canção, e que conheceu particular esplendor no acervo histórico do cancioneiro norte-americano da Broadway e de Tin Pan Alley. Também daqui está relativamente afastada a influência muito marcada dos blues que chegaram a constituir, como seria natural, um traço fundamental de todo o jazz ou um elemento identificador cuja impressão digital se diria irrecusável.

 

Pelo contrário, são também o rock, a pop e a moderna música eletrónica que, enquanto parte integrante da cultura popular urbana hoje envolvente, maioritariamente se integram ou ajudam a ampliar, claramente depurados, a inequívoca linguagem jazzística inerente ao mundo composicional de André Fernandes, ao mesmo tempo que, por contraste, o arrojo e a complexidade de certas composições ou passagens temáticas tornam intrigante e exigente a fruição plena de uma música que no plano sónico pareceria justificar, à partida, um mais nítido apego às expressões musicais de massas.

 

Em André Fernandes, é possível assim surpreendermos uma ambivalência essencial na explanação das suas peças: por um lado, a composição temática estabelecida em extensão, quantas vezes plasmada em secções distintas e contrastantes entre si ou dilatada, repartida e inserida (através de frases breves pelo tutti e no contraste diversificado dos solistas) no desenvolvimento absorvente ou outras vezes solto de uma dada peça.  Creio estarem neste caso obras como Butterflies are Evil, Afghan Trouper, Northern Wind, Matchbox ou Bipolar Banana Cake.  Por outro lado, a forte presença da improvisação individual (e coletiva), enquanto elemento de inserção na composição escrita ou de dispersão e contraposição “temática”, são recorrentes em várias outras peças, como Kings in a Hurry, Tomboy ou Float.

 

Um aspeto deve entretanto sublinhar-se quanto à seriedade intelectual de André Fernandes: a manutenção, ao vivo, da mesma instrumentação escolhida para as diferentes peças gravadas em estúdio. O que significa a rejeição da tentação de “colorir” instrumentalmente em palco (através dos sopros disponíveis) certas peças cuja forte personalidade provém, precisamente, da austera secura do quarteto-base. Mais ainda, esse tipo de fidelidade estrutural ao original gravado permite entender a intenção de manter intocável a personalidade identitária de cada peça, pese embora o amplo espaço de liberdade que o autor confere a cada um dos seus companheiros na construção coletiva de uma obra de grande marca individual.

 

No plano solístico, para além da transcendência que o traço peculiar de André Fernandes confere a par e passo à sua música, encontramos um estilo instrumental muito pessoal que acolhe o gosto pela escala ampla e quase sem fim, a combinação imaginosa de saltos de intervalos ascendentes e descendentes, a deambulação escorreita pelas frequentes e imprevistas modulações harmónicas e a dialética legato/staccato tão característica da articulação e fraseado do guitarrista. Quanto à inspiração sem paralelo de um Bernardo Sassetti, neste disco de novo mergulhado no jazz explícito, ela é decisiva, por exemplo, nos magníficos e gloriosos arpejos iniciais e terminais de Flying Girl, na articulação fulgurante de Matchbox ou Kings in a Hurry, na desenvoltura e novidade tímbrica do Fender Rhodes e, em geral, na forma sublime, soberana mas sempre implícita como contribui para que os vários eventos musicais soem consistentes e grudados entre si.

[Já este texto estava escrito quando se soube que, por motivo de doença, Bernardo Sassetti estaria ausente deste concerto. Um péssima notícia, sem dúvida, por todos os motivos. Mas, ao mesmo tempo, até um pouco em sintonia com a realidade dinâmica que se procurou espelhar neste texto, certamente o grande músico ficará jubiloso por saber que tocará, em seu lugar, uma revelação maior do novo jazz português: o pianista aveirense Óscar Marcelino Graça, hoje mentor ou cúmplice empenhado de alguns dos nossos mais estimulantes projetos musicais.]  (2)

 

No plano rítmico, a afinação cuidada dos dispositivos percussivos de Marcos Cavaleiro e o modo solto, subtil e ao mesmo tempo rude e quase brutal pelo qual os faz soar ligam-se de forma irresistível aos graves rotundos e impetuosos do contrabaixo de Demian Cabaud, ambos formando uma dupla de grande empatia, essa base rítmica estilhaçada que quase sempre contribui para a subversão livre e polirrítmica de estruturas e métricas predefinidas.

 

                                                                                

 

 

Por último José Pedro Coelho (saxofones soprano e tenor) e Susana Santos Silva (trompete e fliscorne) constituem a bem-vinda certeza de um futuro já enunciado.  Ambos líderes dos seus próprios grupos, o primeiro perfila-se como um dos mais versáteis e imaginativos saxofonistas atuais ­ — certamente em primeiríssimo plano em Flying Girl ou Butterflies are Evil — enquanto a segunda contribui com a decisiva elegância do seu som individual (ouça-se, por exemplo Northern Wind ou Kings in a Hurry) para a paleta tímbrica mais ampla buscada por André Fernandes.

 

É esta a renovada esperança do nosso jazz, tornada já realidade em movimento.

 


 

(1)  Texto escrito para a folha de sala do concerto pelo septeto de André Fernandes  (Culturgest, 12.04.12).  Neste concerto tocou também o muito prometedor Ricardo Toscano (clarinete-baixo e sax-alto).

     Fotos:  cortesia de  © Rosa Reis  (ensaio na Culturgest)



 

Em tempo...

 

Após ter assistido na semana passada a este concerto de André Fernandes e seus notáveis companheiros (concerto que resultou, deve dizer-se, em um momento de especial criatividade, consistência colectiva e rasgo individual), parece-me que o texto acima, até por um certo simbolismo que encerra, poderá constituir um adequado ponto final numa atividade crítica escrita que, em termos pessoais, começou há 50 e tal anos.  Reconheça-se, aliás, que uma decisão como esta não constituirá propriamente surpresa para quem tenha acompanhado, por exemplo, a evolução mais recente, bastante irregular, deste blogue. 

 

Sendo certo que, no plano da escrita, o estado da nossa opinião jazzística mais visível não se afigura em certos casos particularmente entusiasmante, outros casos há de novos críticos que asseguram, com êxito, a separação do trigo e do joio, ao mesmo tempo que sabem justificar, com sensatez e clarividência, o fundamento e a credibilidade das suas opiniões. Se este é, portanto, um motivo de reticência mas também de esperança no futuro, mais importante ainda é reconhecer que o crescimento e a renovação do contingente dos nossos músicos profissionais (com alguns dos quais tive o prazer de também episodicamente tocar ao longo dos anos) se está a fazer de uma forma dinâmica e bastante entusiasmante, a ponto de vir a arrastar consigo, espera-se, a progressiva solidez cultural da componente crítica do nosso jazz.

 

Neste momento de afastamento voluntário da actividade regular de escriba (que não ainda, porventura, de outras formas de divulgação e promoção do jazz), gostaria de referir, como contributos enriquecedores para a minha formação neste domínio, os nomes do histórico Luíz Villas-Boas, de Raúl Calado, José Duarte, Raúl Vaz Bernardo, José Nuno Miranda ou António Curvelo, com quem fui convivendo, ao longo dos anos, em sucessivas etapas, ao sabor dos humores, que o mesmo é dizer, dos entusiasmos e das desilusões. Mas também não quero esquecer os meus companheiros músicos e amadores de jazz com os quais me iniciei nestas lides e que foram enriquecendo um quotidiano já distante no tempo mas nunca esquecido: Bernardo Moreira, Justiniano Canelhas, Tó Zé Veloso, José Luís Tinoco, Paulo Gil, Vasco Henriques, Marcos Resende, Nuno Gonçalves, os saudosos Luís Sangareau, Rui Cardoso e Jean-Pierre Gebler, Duarte Mendonça, os irmãos Mayer e Sangareau, Pedro Martins de Lima e tantos outros que é impossível mencionar e que comigo acompanharam o percurso aliciante do nosso jazz.

________________________________

 

(2)  Actualização  (18.05.12):  três semanas após ter colocado neste blog esta espécie de "ponto final", chegaria a notícia dolorosa do desaparecimento de Bernardo Sassetti.  Razão de sobra, embora infortunada, para aqui fazer uma excepção à regra e, estimulado pelo António Curvelo  (e juntando-lhe a sua própria memória),  aqui lembrar o que foi, para o jazz português, o curtíssimo trajecto criativo do notável pianista e compositor.

 


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